{"id":3325,"date":"2018-08-21T01:02:46","date_gmt":"2018-08-21T01:02:46","guid":{"rendered":"http:\/\/rioespera.com\/portal\/?p=3325"},"modified":"2018-08-21T01:02:46","modified_gmt":"2018-08-21T01:02:46","slug":"onde-estao-as-coisas-dos-pobres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rioespera.com\/portal\/onde-estao-as-coisas-dos-pobres\/","title":{"rendered":"Onde est\u00e3o as coisas dos pobres"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Onde est\u00e3o as coisas dos pobres?&#8221; Museus e a pedagogia transformadora de Paulo Freire<br \/>\nagosto 08, 2018<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Por Ana Maria Nogueira Oliveira<\/p>\n<p>Em 2010 tomei posse como t\u00e9cnica em Assuntos Educacionais no Museu Regional de S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei, institui\u00e7\u00e3o vinculada ao Instituto Brasileiro de Museus\/MinC. Desde ent\u00e3o tenho coordenado os trabalhos do setor educativo do museu que a partir de 2011 ganhou uma vaga para estagi\u00e1rio. A institui\u00e7\u00e3o tem investido na forma\u00e7\u00e3o de p\u00fablico e recebe durante todo o ano grupos escolares os quais se constituem como o p\u00fablico de maior express\u00e3o. Minha atua\u00e7\u00e3o demandou a busca de conhecimentos na \u00e1rea de educa\u00e7\u00e3o em museus e o estabelecimento de diretrizes e m\u00e9todos que auxiliassem as pr\u00e1ticas nas a\u00e7\u00f5es educativas. Foi a partir dessa necessidade que surgiu a ideia dessa pesquisa.<br \/>\nEntendo a visita mediada ao museu como uma oportunidade de troca de experi\u00eancias e conhecimentos atrav\u00e9s de di\u00e1logos entre os visitantes e o educador, mas tamb\u00e9m entre os pr\u00f3prios visitantes. \u00c9 interessante notar como cada pessoa reage aos objetos a partir da pr\u00f3pria bagagem cultural. A leitura da narrativa museal \u00e9 particular e \u00e9 feita atrav\u00e9s de observa\u00e7\u00f5es, reflex\u00f5es e conex\u00f5es entre o objeto e aspectos da pr\u00f3pria vida. \u00c9 isto que d\u00e1 significado ao acervo e, consequentemente, vida ao museu. Por isso \u00e9 importante o papel do educador, pois ele \u00e9 a ponte, ou seja, \u00e9 ele quem faz a liga\u00e7\u00e3o entre a narrativa museal e o visitante chamando aten\u00e7\u00e3o para aspectos que talvez o visitante n\u00e3o perceba ou que talvez n\u00e3o estejam expl\u00edcitos na narrativa; e os motivos pelos quais eles n\u00e3o se encontram l\u00e1. Dessa forma ajudando-os a construir o pr\u00f3prio conhecimento, atrav\u00e9s de uma vis\u00e3o cr\u00edtica do contexto hist\u00f3rico, buscando rela\u00e7\u00e3o do passado com o presente e o futuro.<br \/>\nSempre procurei instigar no visitante a curiosidade e o interesse para que ele pr\u00f3prio constru\u00edsse seu conhecimento atrav\u00e9s da leitura da narrativa museal e contextualiza\u00e7\u00e3o dos objetos; considerando-se tamb\u00e9m suas pr\u00f3prias experi\u00eancias e refer\u00eancias pessoais, auxiliado pelas informa\u00e7\u00f5es que eu pudesse acrescentar. Sendo assim, estava segura de que estava contribuindo para uma visita prof\u00edcua e instigante at\u00e9 que um dia um dos alunos de uma escola p\u00fablica de ensino fundamental me dirigiu uma pergunta que me fez refletir n\u00e3o s\u00f3 no processo educacional, mas tamb\u00e9m e principalmente nos aspectos pol\u00edticos e sociais que envolvem uma visita ao museu e mais especificamente nos aspectos que envolvem a media\u00e7\u00e3o museal.<br \/>\nA visita se iniciara pelo pr\u00e9dio que abriga o museu. Um casar\u00e3o do s\u00e9culo XIX. Mostrara-lhes que poucas pessoas possu\u00edam condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas para construir um casar\u00e3o suntuoso como aquele e s\u00f3 algu\u00e9m abastado o bastante teria condi\u00e7\u00f5es para faz\u00ea-lo. Depois, pass\u00e1ramos pelos meios de transporte, tamb\u00e9m do mesmo s\u00e9culo e anterior: as liteiras e cadeirinha de arruar, respectivamente. Novamente chamara a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que somente pessoas afortunadas possu\u00edam esses meios de transporte. Em seguida, dirig\u00edramo-nos para o primeiro andar do pr\u00e9dio e f\u00f4ramos ver o mobili\u00e1rio. Camas em estilo D. Jo\u00e3o V, D. Maria I e D. Jos\u00e9 I. Novamente eu fizera a pergunta: \u201cvoc\u00eas acham que qualquer pessoa poderia possuir um objeto desses?\u201d E eles concordaram que n\u00e3o. Por\u00e9m, o aluno que mencionei disse com certa impaci\u00eancia: \u201cS\u00f3 os ricos, sempre os ricos. Onde est\u00e3o as coisas dos pobres\u201d?<br \/>\nEnt\u00e3o me dei conta de que o museu possui, em sua maioria, objetos usados pela classe social dominante da \u00e9poca. E como as pessoas comuns viviam? Como eram suas vidas cotidianas? Seus instrumentos de trabalho? Como eram as camas dos escravos, suas roupas? E o motivo pelo qual esses objetos da classe menos favorecida n\u00e3o s\u00e3o encontrados no museu? A quest\u00e3o levantada pelo visitante suscita uma reflex\u00e3o maior sobre a educa\u00e7\u00e3o em museus; a aprendizagem em espa\u00e7os n\u00e3o formais; visitas mediadas, o papel do educador de museus e t\u00e9cnicas de abordagem que melhor se adequem a esse espa\u00e7o, al\u00e9m da autorreflex\u00e3o da minha pr\u00e1tica como educadora museal.<br \/>\nSegundo o Estatuto de Museus, as institui\u00e7\u00f5es museais t\u00eam, al\u00e9m das fun\u00e7\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o de acervo, pesquisa e preserva\u00e7\u00e3o, a fun\u00e7\u00e3o de comunica\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o. Hodiernamente, n\u00e3o se admite mais um museu como lugar de guarda de bens culturais. Deu-se \u00eanfase \u00e0 sua fun\u00e7\u00e3o social, ou seja, promover atrav\u00e9s da educa\u00e7\u00e3o o desenvolvimento social. Quando o museu elabora e estabelece sua exposi\u00e7\u00e3o ele cria uma narrativa. E desse fato pode-se considerar alguns aspectos importantes.<br \/>\nA narrativa museal n\u00e3o \u00e9 isenta, ou seja, ela \u00e9 carregada de nuances e escolhas de seu idealizador. Portanto, nenhum museu ou exposi\u00e7\u00e3o \u00e9 imparcial. A forma como foram elaborados ou constitu\u00eddos vem carregada da vis\u00e3o de mundo dos seus idealizadores. \u201cA musealiza\u00e7\u00e3o &#8211; de curta ou de longa dura\u00e7\u00e3o &#8211; \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria, de car\u00e1ter seletivo e pol\u00edtico. Vinculada a um esquema de atribui\u00e7\u00e3o de valores: culturais, ideol\u00f3gicos, religiosos, econ\u00f4micos etc..\u201d (CHAGAS, 1960,p.59). Portanto, resta ao visitante interpretar com consci\u00eancia cr\u00edtica para que outros \u00e2ngulos das quest\u00f5es sejam discutidos e abordados. Diante do exposto compartilho da opini\u00e3o de David Flemming, (2012 apud ATKINSOM, 2012) quando diz que nenhum museu \u00e9 imparcial em rela\u00e7\u00e3o a aspectos pol\u00edticos.<br \/>\nPara Flemming (2012) \u00e9 hipocrisia denominar os museus como apol\u00edticos, pois as atividades b\u00e1sicas necess\u00e1rias ao funcionamento de um museu s\u00e3o carregadas de significado e vi\u00e9s humano: \u201cThe myth of apolitical museums is perpetuated by self-serving elite that want the museum to be theirs. The issue isn\u2019t whether it\u2019s right or wrong to be political \u2013 the issue is that all museums are, so why do people pretend they are not\u201d.[1] Ele ainda ressalta que o museu \u201cpol\u00edtico\u201d tem o dever de representar todos os segmentos da sociedade. No entanto, eu diria que o museu n\u00e3o s\u00f3 deve representar todos os segmentos da sociedade, mas tamb\u00e9m deve se aproximar de todos os segmentos da sociedade. Ele deve ser um espa\u00e7o democr\u00e1tico tanto no acesso quanto na abertura para discuss\u00f5es de temas importantes da atualidade. Diante do contexto, o educador desempenha um papel crucial, pois ele pode ressaltar ou chamar a aten\u00e7\u00e3o para aspectos, os quais o visitante talvez n\u00e3o perceba. Ele pode cooperar para instigar a vis\u00e3o critica do visitante e mais ainda, pode despertar nele o desejo de pesquisar e aprofundar o conhecimento.<br \/>\nPoder-se-ia deduzir da\u00ed que a educa\u00e7\u00e3o em museus em face dessa realidade seria ineficiente, ou seja, que nos museus a aprendizagem seria pela metade, pois l\u00e1 mostraria somente uma parte da realidade hist\u00f3rica. Todavia, entendo que, pelo fato de haver lacunas nas exposi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o significa que o museu seja um instrumento ineficiente de educa\u00e7\u00e3o. Ele \u00e9 um instrumento com grandes possibilidades de aprendizagem. Pois, se o objeto \u00e9 um pretexto para discuss\u00f5es e reflex\u00f5es, as lacunas, a falta dele, tamb\u00e9m o \u00e9. \u00c9 preciso mostrar o caminho da \u201cleitura\u201d. Conforme aponta Chartier:<\/p>\n<p>A cita\u00e7\u00e3o de Gombrich faz lembrar-me um apontamento quase id\u00eantico de Paul Ricouer que diz que um texto sem leitor \u00e9 um n\u00e3o texto, quer dizer, s\u00f3 pegadas negras em uma folha em branco. Ricoeur utiliza os conceitos hermen\u00eauticos de atualiza\u00e7\u00e3o ou apropria\u00e7\u00e3o em um sentido particular para designar o encontro que d\u00e1 exist\u00eancia ao texto por meio da leitura. (CHARTIER, 2001, p.89)<\/p>\n<p>No museu acontece algo semelhante: a exposi\u00e7\u00e3o sem a \u201cleitura\u201d do visitante, ou seja, sem sua contribui\u00e7\u00e3o interpretando com sua bagagem cultural \u00e9 apenas um dep\u00f3sito de objetos. Constatamos, ent\u00e3o, que a narrativa museal apresentada \u00e9 apenas uma vers\u00e3o poss\u00edvel de outras interpreta\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m disso, no processo de sua elabora\u00e7\u00e3o seguindo os valores do contexto hist\u00f3rico e pessoal, alguns objetos foram selecionados em detrimento de outros. Portanto, a narrativa \u00e9 uma vers\u00e3o com objetos presentes e de certa forma de \u201caus\u00eancias\u201d que contam uma hist\u00f3ria. Cabe aos visitantes fazerem sua interpreta\u00e7\u00e3o. Freire (2005, p.20) falando-nos da import\u00e2ncia do ato de ler nos diz que a leitura est\u00e1 intrinsecamente ligada ao contexto, ao mundo. Ali\u00e1s, para ele \u201ca leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade da leitura daquele.\u201d<br \/>\nPor isso \u00e9 importante nesse momento o papel do educador, ao se fazer consciente de suas responsabilidades e sabedor das implica\u00e7\u00f5es da narrativa museal, ele deve ter consci\u00eancia da import\u00e2ncia de sua fun\u00e7\u00e3o, pois ele \u00e9 o mediador entre o passado e o presente, o exposto e seu contexto hist\u00f3rico, pol\u00edtico e social e at\u00e9 mesmo o que n\u00e3o est\u00e1 exposto dentro tamb\u00e9m do seu contexto hist\u00f3rico, pol\u00edtico e social. Ele \u00e9 o organizador do encontro, pois museu \u00e9 lugar de encontros, no plural, encontro de gera\u00e7\u00f5es, de discuss\u00f5es, de partilhas, de encantamentos. Se n\u00e3o acontecer dessa forma, museu ser\u00e1 o espa\u00e7o vazio, sem gra\u00e7a o que por muito tempo vigorou no senso comum.<br \/>\nE como desempenhar bem o papel do educador de maneira eficiente e interessante? Como instigar no visitante o desejo de conhecer mais? O objeto \u00e9 o pretexto para discuss\u00f5es e elucida\u00e7\u00f5es sobre o cotidiano e a hist\u00f3ria das pessoas do per\u00edodo bem como relevantes temas atuais que tem conex\u00e3o com a discuss\u00e3o. \u00c9 importante discutir a forma\u00e7\u00e3o do educador de museus e estrat\u00e9gias que ele possa usar para desempenhar com efici\u00eancia o papel de elo entre os objetos e o visitante. Nossa discuss\u00e3o aqui compreende a media\u00e7\u00e3o em museus de historia e arte. Como dissemos anteriormente a narrativa museal composta de seus objetos hist\u00f3ricos ou art\u00edsticos \u00e9 apenas uma vers\u00e3o de muitas outras vers\u00f5es poss\u00edveis. Na media\u00e7\u00e3o \u00e9 o momento de troca de experi\u00eancias, de relatos e discuss\u00f5es. E dessa forma que utilizamos os objetos como pretexto com o objetivo maior do conhecimento do mundo e de n\u00f3s mesmos. Como fazer os visitantes conhecerem, ou melhor, quererem conhecer? Como despert\u00e1-los para um caminho das descobertas, do gosto pelo conhecimento?<br \/>\nO objetivo desse artigo \u00e9 discutir algumas id\u00e9ias e conceitos de Paulo Freire e sua aplica\u00e7\u00e3o como metodo na educa\u00e7ao em museus. Compreendo que o autor propos sua pedagogia como proposta para a alfabetiza\u00e7\u00e3o de adultos, no entanto acredito que muito de sua proposta pode e deve ser utilizada nas media\u00e7oes de visitas aos museus e centros culturais.<br \/>\nCompreendemos que a educa\u00e7\u00e3o em museus difere da educa\u00e7\u00e3o formal, pois sendo uma educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o-formal, possui caracter\u00edsticas pr\u00f3prias. No museu a educa\u00e7\u00e3o tem car\u00e1ter mais l\u00fadico e livre, por\u00e9m isso n\u00e3o significa que a a\u00e7\u00e3o educativa n\u00e3o deva ter seriedade e respaldo te\u00f3rico que embase seu planejamento, execu\u00e7\u00e3o e avalia\u00e7\u00e3o. Para alguns te\u00f3ricos a educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o-formal \u00e9 caracterizada apenas por atividades que n\u00e3o ocorrem na institui\u00e7\u00e3o escolar. Todavia, acreditamos que as diferen\u00e7as sejam ainda maiores, pois os objetivos de ambas tamb\u00e9m se distanciam. Enquanto na educa\u00e7\u00e3o formal os conte\u00fados j\u00e1 est\u00e3o preestabelecidos e programados inclusive no que diz respeito \u00e0s avalia\u00e7\u00f5es, a educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o-formal \u00e9 a aprendizagem da frui\u00e7\u00e3o e flui\u00e7\u00e3o, pois a aprendizagem acontece com prazer e sem programa\u00e7\u00e3o r\u00edgida, acontece de acordo com o interesse dos visitantes. Al\u00e9m disso, visa tamb\u00e9m a forma\u00e7\u00e3o integral do indiv\u00edduo, proporcionar lhe conhecimentos do mundo que o circunda e de suas rela\u00e7\u00f5es sociais.<br \/>\nEncontramos em Paulo freire, em sua tese de 1959, intitulada Educa\u00e7\u00e3o e Atualidade Brasileira, uma ampla an\u00e1lise da educa\u00e7\u00e3o brasileira e sua rela\u00e7\u00e3o com o contexto no espa\u00e7o e no tempo. Seu estudo traz novas ideias que poder\u00e3o contribuir grandemente para o campo da educa\u00e7\u00e3o em museus. O grande educador, com sua experi\u00eancia na educa\u00e7\u00e3o popular e sua an\u00e1lise da sociedade brasileira, contribuiu enormemente para a constru\u00e7\u00e3o de novos conceitos. Dentre os quais gostaria de me ater a apenas dois: organicidade e dialoga\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPara Freire \u201c\u00e9 necess\u00e1rio ao processo educativo estabelecer rela\u00e7\u00e3o de organicidade com a contextura da sociedade a que se aplica.\u201d( 1959, p. 10) E que \u201cessa rela\u00e7\u00e3o de organicidade\u201d implica um conhecimento cr\u00edtico da realidade para que s\u00f3 assim possa se integrar com ela e n\u00e3o a ela se superpor. Consideramos que esse conceito guarda estreita rela\u00e7\u00e3o com a ideia de \u201cleitura do mundo\u201d, citado anteriormente. O processo educativo n\u00e3o \u00e9 um ato isolado e neutro. Ele se insere dentro de um determinado momento e circunst\u00e2ncias, com determinadas personalidades. Portanto, ele s\u00f3 ser\u00e1 integral quando levar em considera\u00e7\u00e3o esses fatores. E como podemos aplicar essas ideias nos museus? Ora, a media\u00e7\u00e3o deve ser um momento que propicie essa leitura de mundo, esse conhecimento cr\u00edtico da realidade. Os objetos da narrativa museol\u00f3gica, assim como suas lacunas s\u00e3o pretextos para se iniciar discuss\u00f5es e debates que fa\u00e7am emergir o conhecimento do mundo e dos indiv\u00edduos enquanto seres sociais e pol\u00edticos.<br \/>\nPara isso \u00e9 necess\u00e1rio a prepara\u00e7\u00e3o do educador. Primeiramente ele \u00e9 que necessita reconhecer seu papel, sua responsabilidade no processo de aprendizagem que ali deve ocorrer. E n\u00e3o se deixar levar pela ideia ing\u00eanua de que os processos de aprendizagem que ali ocorrem s\u00e3o neutros e isentos de qualquer rela\u00e7\u00e3o com a vida, o mundo e o contexto social.<br \/>\nOs dois conceitos guardam estreita rela\u00e7\u00e3o entre si. Um completa o outro e fazem parte de um mesmo processo. \u00c9 a partir da constata\u00e7\u00e3o de que tudo se relaciona, da consci\u00eancia de que o individuo existe em um determinado espa\u00e7o e tempo, \u00e9 que ele adquire a consci\u00eancia critica e passa, atrav\u00e9s do dialogo, \u00e0 participa\u00e7\u00e3o e \u00e0 responsabilidade social e pol\u00edtica.<br \/>\nO di\u00e1logo para Freire n\u00e3o se restringe apenas \u00e0 palavra\u00e7\u00e3o. Ele o prop\u00f5e como forma de participa\u00e7\u00e3o e responsabilidade. Segundo ele, a educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o deveria ser para a popula\u00e7\u00e3o, mas com a popula\u00e7\u00e3o. Sendo assim, o povo deveria ser ouvido e as propostas negociadas. O conte\u00fado program\u00e1tico, ent\u00e3o, seria significativo, pois teria rela\u00e7ao com a sua realidade. Seriam temas pelos quais ele teria preocupa\u00e7\u00f5es, interesses ou necessidade. Dessa forma estaria se desenvolvendo nele a responsabilidade social e a consci\u00eancia critica.<br \/>\nMas de que modo essa proposta pode ser aplicada em museus sendo que a educa\u00e7\u00e3o em museus tem car\u00e1ter diferente da educa\u00e7\u00e3o formal ?<br \/>\nN\u00f3s dissemos anteriormente que a narrativa museal tem amplas possibilidades de interpreta\u00e7\u00e3o. Cabe ao educador de museus o papel de mediador consciente de suas responsabilidades, atrav\u00e9s de di\u00e1logos, respeitando a bagagem cultural do visitante, propor debates e discuss\u00f5es que produzam conhecimento n\u00e3o somente do que est\u00e1 expl\u00edcito na narrativa museal, mas fazendo rela\u00e7\u00f5es com o contexto social da \u00e9poca e com o atual.<br \/>\nAlem disso, museus devem ser espa\u00e7o p\u00fablico de debates, encontros do igual e do diferente, encontros de gera\u00e7\u00f5es, de fam\u00edlias, de pais e crian\u00e7as, de busca de conhecimentos e solu\u00e7\u00f5es de nossos problemas, com di\u00e1logo e participa\u00e7\u00e3o, s\u00f3 assim propiciaremos valores importantes na atualidade como toler\u00e2ncia, respeito, \u00e9tica e valoriza\u00e7\u00e3o humana. S\u00f3 assim tamb\u00e9m \u201cencantaremos\u201d os visitantes, n\u00e3o no sentido de Guimar\u00e3es Rosa, mas no sentido de que o museu deve tocar a alma de quem se adentre. As institui\u00e7\u00f5es, dessa forma, estar\u00e3o contribuindo para a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade melhor e cumprindo sua miss\u00e3o educativa.<br \/>\nEm outra obra importante Educa\u00e7\u00e3o como Pr\u00e1tica da Liberdade, Paulo Freire faz uma exposi\u00e7\u00e3o de suas experi\u00eancias e m\u00e9todo na alfabetiza\u00e7\u00e3o de adultos. O livro foi publicado durante seu ex\u00edlio no Chile, em 1967, mas as experi\u00eancias aconteceram antes de 1964, primeiramente em Anjicos, no Maranhao e mais tarde em outras cidades do Brasil. Seu projeto estava ligado ao plano desenvolvimentista do presidente Jo\u00e3o Goulart e em 1964, antes do golpe militar, havia a inten\u00e7\u00e3o de implanta\u00e7\u00e3o de 20.000 c\u00edrculos de leitura pelo pa\u00eds, com o envolvimento dos movimentos sociais e universidades.<br \/>\nNesse ensaio ele enfatiza sua total avers\u00e3o a qualquer hip\u00f3tese de uma alfabetiza\u00e7\u00e3o puramente mec\u00e2nica. Longe da utiza\u00e7\u00e3o de cartilhas com palavras tatalmente desconectadas da realidade local, ele prop\u00f4s a a\u00e7\u00e3o educativa cuja finalidade, al\u00e9m da escrita e da leitura, era que o homem brasileiro desenvolvesse a consci\u00eancia cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua realidade, tornando-se apto a promover a sua transforma\u00e7\u00e3o. \u201c Pens\u00e1vamos numa alfabetiza\u00e7\u00e3o que fosse em si um ato de cria\u00e7\u00e3o, capaz de desencadear outros atos criadores.\u201d( FREIRE, 2014,P. 104).<br \/>\nFreire considerou que somente conseguiria atingir seus objetivos com um m\u00e9todo espec\u00edfico, ou seja, \u201csomente um m\u00e9todo ativo, dialogal, participante.\u201d( 2014,p.107). Ele Promovia debates em grupo a partir de situa\u00e7\u00f5es desafiadoras e existenciais, isto \u00e9, situa\u00e7\u00f5es de vida, comum aos participantes, por\u00e9m estrat\u00e9gicas, no sentido de que, pelo di\u00e1logo elas os levariam a compreender n\u00e3o s\u00f3 a sua realidade dentro daquele tema, mas tamb\u00e9m fazer rela\u00e7\u00f5es com uma realidade mais ampla. Assim, o debate promovia a \u201cdecodifica\u00e7\u00e3o\u201d das situa\u00e7\u00f5es, que por sua vez, os levava \u00e0 compreens\u00e3o e cr\u00edtica da pr\u00f3pria exist\u00eancia.<br \/>\nSobre essa estrat\u00e9gia de seu m\u00e9todo de alfabetiza\u00e7\u00e3o considero essencial apontar dois aspectos, os quais guardam uma profunda rela\u00e7\u00e3o com a educa\u00e7\u00e3o museal.<br \/>\nO primeiro ponto \u00e9 que para apresentar essas situa\u00e7\u00f5es exist\u00eancias a que nos referimos anteriormente, Paulo Freire, pediu a um artista que as pintasse. Dessa forma o objeto servia como recurso did\u00e1tico para o di\u00e1logo. A partir dessas pinturas o debate era incentivado para se chegar ao que ele chamava de decodifica\u00e7\u00e3o, quer dizer, a obra de arte era pretexto para discutir-se temas que despertassem nos participantes a consci\u00eancia critica.<br \/>\nOutro aspecto que \u00e9 importante frisar \u00e9 o conte\u00fado program\u00e1tico. Para ele o primeiro conceito a ser trabalhado com os participantes deveria ser o conceito antropol\u00f3gico de cultura. \u201cA cultura como o acrescentamento que o homem faz ao mundo que n\u00e3o fez. A cultura como o resultado de seu trabalho. Do seu esfor\u00e7o criador e recriador.\u201d( Freire,1967,p.108) \u00c9 a valoriza\u00e7\u00e3o do homem do povo e sua cultura, seu modo de viver e transformar a natureza pelo trabalho. Essa vis\u00e3o sobre a cultura \u00e9 importante porque a pessoa passa a se enxergar como produtor de cultura, orgulhoso de sua identidade e ao mesmo tempo reconhece e valoriza outras culturas.<br \/>\nNos museus, acontece da mesma forma. \u00c9 a partir dos objetos da narrativa museal que devemos buscar o di\u00e1logo e a sua decodifica\u00e7\u00e3o, deixar que os visitantes nos falem da rela\u00e7\u00e3o que aquele objeto tem com a sua realidade, seu mundo; ouvir a leitura que ele faz. Nunca nos esquecendo de informa\u00e7\u00f5es que possamos acrescentar para que o tema seja explorado em todas as suas nuances e perspectivas. Nesse momento, paralelamente, pode ser introduzido o conceito de cultura conforme o entende Paulo Freire. Para que as perspectivas sejam ampliadas, pois percepemos que, ainda hoje, muitos convivem com um conceito equivocado de cultura, n\u00e3o valorizando a cultura popular e imaginando que cultura \u00e9 somente o que \u00e9 produzido nas artes. Os museus tem grandes responsabilidade na desconstru\u00e7\u00e3o dessas representa\u00e7oes. Uma de suas fun\u00e7\u00f5es \u00e9 exatamente a valoriza\u00e7\u00e3o da cultura popular em todas as suas express\u00f5es. \u00c9 abrir espa\u00e7os para aqueles que sempre foram exclu\u00eddos.<br \/>\nPor tudo isso consideramos que Paulo Freire tem muito a contribuir no campo da educa\u00e7\u00e3o em museus. Aqui apresentamos apenas algumas id\u00e9ias e alguns conceitos dentro de sua grande obra. Muito mais ainda pode ser acrescentado. Ele abriu os horizontes e suas ideias pedagogicas podem ser aplicadas e terem execelentes resultados no campo da educa\u00e7\u00e3o em museus. N\u00e3o somente por essas ideias aqui apresentadas, mas por sua pedagogia transformadora e libertadora, aquela que esclarece, informa e forma o homem critico, apto a transformar a sua realidade. Pois, segundo ele mesmo, nunca podemos nos esquecer que todo ato educativo \u00e9 pol\u00edtico e todo ato pol\u00edtico \u00e9 educativo.<\/p>\n<p>REFERENCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS<\/p>\n<p>ATKINSOM, Rebecca. The Mith of the Apolitical Museum. Museums Journal: blog. Dispon\u00edvel em: &lt;www.museumassociation.org\/museums-jornal-blog\/17102012-political-museum-liverpool&gt; Acesso em 08 ago 2014;<br \/>\nCHAGAS, M\u00e1rio. Muse\u00e1lia. Rio de Janeiro: JC Editora, 1996;<br \/>\nCHARTIER, Roger. Os espa\u00e7os da Hist\u00f3ria do Livro. In: CHARTIER, Roger. Cultura Escrita, Literatura e Hist\u00f3ria: Conversas de Roger Chartier com Carlos Aguirre Anaya, Jes\u00fas Anaya Roseque, Daniel Goldin e Antonio Saborit. Porto Alegre: ARTMED Editora, 2001. p.57-81;<br \/>\nFALC\u00c3O, Andrea(org.). Museu e Escola: educa\u00e7\u00e3o formal e n\u00e3o-formal.<br \/>\nFREIRE, Paulo. A import\u00e2ncia do ato de ler: em tr\u00eas artigos que se completam. S\u00e3o Paulo: Cortez, 2005;<br \/>\nFREIRE, Paulo. Educa\u00e7\u00e3o e Atualidade Brasileira:Tese de Concurso para a Cadeira de Hist\u00f3ria e Filosofia da Educa\u00e7ao na Escola de Belas-Artes de Pernambuco.S\u00e3o Paulo:Cortez,2001;<br \/>\nGHIRALDELLI Jr., Paulo. Dossi\u00ea Plat\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Universo dos Livros, 2011;<br \/>\nINSTITUTO Brasileiro de Museus\/Minc. Documento Preliminar do Programa Nacional de Educa\u00e7\u00e3o Museal. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/pnem.museus.gov.br\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/DOCUMENTO.pdf&gt;. Acesso em 11 ago. 2014;<br \/>\nSCHMIDT, Laurel. Classroom Confidential- The 12 secrets of great Teachers. Portsmouth: Danny Miller Editor, 2004;<br \/>\nSHUH, Jonh Hennigar. Teaching Yourself to Teach with Objects. Journal of Education. Volume 7, No. 4, 1992, p.8-15;<br \/>\nSTUART, Denise C. Museus: emo\u00e7\u00e3o e aprendizagem. Dispon\u00edvel em: &lt;www.revistadehistoria.com.br\/secao\/educacao\/museus-emo\u00e7ao-e-aprendizagem&gt;. Acesso em 09 jan. 2014.<\/p>\n<p>[1]Em seu pr\u00f3prio interesse, o mito de museus apol\u00edticos \u00e9 perpetuado pela elite cujo objetivo \u00e9 que o museu seja deles. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 se \u00e9 certo ou errado ser pol\u00edtico \u2013 a quest\u00e3o \u00e9 que todos os museus s\u00e3o pol\u00edticos, no entanto algumas pessoas fingem que n\u00e3o s\u00e3o. (FLEMMING, 2012. Tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/edugrio.blogspot.com\/2018\/08\/onde-estao-as-coisas-dos-pobres-museus.html?m=1\">Publicado em: Blog Edugri\u00f4<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Onde est\u00e3o as coisas dos pobres?&#8221; Museus e a pedagogia transformadora de Paulo Freire agosto 08, 2018 &nbsp; Por Ana Maria Nogueira Oliveira Em 2010<span class=\"read-more-link\"><a class=\"read-more\" href=\"https:\/\/rioespera.com\/portal\/onde-estao-as-coisas-dos-pobres\/\">Read More<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3326,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[22,12,29,9],"tags":[],"class_list":["post-3325","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cronicas","category-patrimonio","category-rio-esperense","category-social"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rioespera.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3325","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rioespera.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rioespera.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rioespera.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rioespera.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3325"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rioespera.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3325\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3327,"href":"https:\/\/rioespera.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3325\/revisions\/3327"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rioespera.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3326"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rioespera.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3325"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rioespera.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3325"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rioespera.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3325"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}