{"id":872,"date":"2018-03-25T22:59:18","date_gmt":"2018-03-25T22:59:18","guid":{"rendered":"http:\/\/rioespera.com\/portal\/?p=872"},"modified":"2023-04-19T18:51:38","modified_gmt":"2023-04-19T21:51:38","slug":"quando-eramos-reis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rioespera.com\/portal\/quando-eramos-reis\/","title":{"rendered":"Quando \u00e9ramos reis"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">por Ricardo Nogueira<\/p>\n<p><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;\">L\u00e1 em Rio Espera, jacar\u00e9 n\u00e3o \u00e9 nome de bicho. Era nome de Gente. Wanderl\u00facio era apenas o apelido, o nome: Jacar\u00e9. Era jogador de futebol e nas horas de folga (que eram muitas) era motorista e namorador. Ex\u00edmio namorador! Certa vez um velho ponderou: o Jacar\u00e9 dirige os carros e os cora\u00e7\u00f5es. Dirigia mais. Dirigia os sonhos das crian\u00e7as.<br \/>\nO Jacar\u00e9 foi meu primeiro \u00eddolo!<br \/>\nOs meninos de hoje n\u00e3o devem fazer mais isso, mas l\u00e1 em Rio Espera a gente fazia. L\u00e1, a partida de futebol &#8211; a &#8220;pelada&#8221; &#8211; n\u00e3o come\u00e7ava com o apito do juiz, era com o grito. O grito dos outros meninos chamando para jogar bola. \u00c9ramos todos craques. O caminho at\u00e9 o campo era o momento de escolher quem seria quem quando a bola rolasse. &#8220;Eu sou Toninho Cerezo&#8221;, gritava um. &#8220;S\u00f3 jogo se for o Balu do Cruzeiro&#8221;, exigia o outro. E assim, a melhor sele\u00e7\u00e3o de Minas entrava em campo, mas precisamente, no Campo do Asilo.<br \/>\nUm dia tomei uma decis\u00e3o: n\u00e3o queria mais ser o t\u00e3o cobi\u00e7ado Tost\u00e3o, passaria a ser o Jacar\u00e9. Isto mesmo, decidi prestigiar um jogador da nossa terra. Minha atitude contagiou os outros meninos e, em pouco tempo, os jogadores do famoso time do Gin\u00e1sio eram \u00eddolos da meninada. E acompanh\u00e1vamos aqueles nossos \u00eddolos em todos os jogos, defendendo-os a unhas e dentes.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><script async=\"\" src=\"\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/js\/adsbygoogle.js\"><\/script><br \/>\n<ins class=\"adsbygoogle\" style=\"display: block; text-align: center;\" data-ad-layout=\"in-article\" data-ad-format=\"fluid\" data-ad-client=\"ca-pub-8404309934763038\" data-ad-slot=\"7973251534\"><\/ins><br \/>\n<script><br \/>\n     (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});<br \/>\n<\/script><br \/>\nE quando volt\u00e1vamos a campo era aquela zoeira. Cada qual era seu pr\u00f3prio narrador no melhor estilo da R\u00e1dio Itatiaia. &#8220;L\u00e1 vai Jacar\u00e9 com a bola dominada, passa por um, por dois, carrega, levanta a cabe\u00e7a e chuta: na traaavee!&#8221;. Era b\u00e1rbaro! Quando algu\u00e9m se machucava, e algu\u00e9m se machucava todo dia, at\u00e9 o som das sirenes das ambul\u00e2ncias era improvisado. Invariavelmente, volt\u00e1vamos para casa roucos e felizes.&nbsp;<br \/>\nNunca vou me esquecer do dia que o Jacar\u00e9 pulou com os dois p\u00e9s nas costas do juiz. N\u00e3o havia d\u00favida de que nosso time estava sendo lesado pela arbitragem. Os meninos j\u00e1 haviam invocado o nome da m\u00e3e do \u00e1rbitro v\u00e1rias vezes. A coisa estava feia mesmo. Ent\u00e3o, ele, o juiz, marcou um p\u00eanalti que nunca existiu. Foi a gota d&#8217;\u00e1gua! E do meio do tumulto surgiu o Jacar\u00e9 correndo em dire\u00e7\u00e3o ao tal \u00e1rbitro. Como nos filmes, ele pulou lan\u00e7ando os dois p\u00e9s contra o coitado que j\u00e1 caiu desacordado. Foi um &#8220;Deus nos acuda&#8221;.<br \/>\nDepois daquele dia, em toda &#8220;pelada&#8221; fic\u00e1vamos horas a fio imitando o pulo do Jacar\u00e9. Alguns com mais perfei\u00e7\u00e3o, outros com menos. R\u00edamos do juiz e vanglori\u00e1vamos o nosso \u00eddolo. Pens\u00e1vamos que um dia ter\u00edamos coragem para fazer uma coisa daquela. Os mais velhos diziam que ele era encrenqueiro. Ouv\u00edamos os mais velhos, mas desej\u00e1vamos aquela ousadia.<\/p>\n<p><script async=\"\" src=\"\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/js\/adsbygoogle.js\"><\/script><br \/>\n<ins class=\"adsbygoogle\" style=\"display: block; text-align: center;\" data-ad-layout=\"in-article\" data-ad-format=\"fluid\" data-ad-client=\"ca-pub-8404309934763038\" data-ad-slot=\"7973251534\"><\/ins><br \/>\n<script><br \/>\n     (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});<br \/>\n<\/script><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">E teve um dia que o Jacar\u00e9 morreu. Foi num acidente de carro. Estava indo para Belo Horizonte e nunca mais voltou. Algum adulto at\u00e9 comentou que a trag\u00e9dia era a mesma que acometeu um tal James Dean. A nossa turma da &#8220;pelada&#8221; foi ao enterro. Cabisbaixos e melanc\u00f3licos, acompanhamos todo o funeral. Para maioria foi a primeira grande perda da vida. Ningu\u00e9m falou nada, vai ver as palavras estavam segurando as l\u00e1grimas.<\/p>\n<p><script async=\"\" src=\"\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/js\/adsbygoogle.js\"><\/script><br \/>\n<ins class=\"adsbygoogle\" style=\"display: block; text-align: center;\" data-ad-layout=\"in-article\" data-ad-format=\"fluid\" data-ad-client=\"ca-pub-8404309934763038\" data-ad-slot=\"7973251534\"><\/ins><br \/>\n<script><br \/>\n     (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});<br \/>\n<\/script><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">No dia seguinte, voltamos ao campo. Era dia de &#8220;pelada&#8221;. A tristeza era grande e se queria perene. Pensei em at\u00e9 parar de jogar futebol. E quando a bola rolou, descobrimos que \u00e9ramos n\u00f3s que jog\u00e1vamos. N\u00e3o havia mais \u00eddolos. N\u00e3o havia mais Jacar\u00e9. N\u00e3o havia mais gra\u00e7a. E foi ent\u00e3o que tudo aconteceu. A ressurrei\u00e7\u00e3o. Em cada toque, em cada jogada, em cada gesto, em cada insinua\u00e7\u00e3o, l\u00e1 estava o Jacar\u00e9. Como num feiti\u00e7o, come\u00e7amos a mudar. Aos poucos. Um olhar, uma palavra, um grito e, antes de terminar o jogo, est\u00e1vamos todos rindo. Nosso \u00eddolo havia voltado! E lan\u00e7aram a bola em minha dire\u00e7\u00e3o. Dominei, driblei e fiz o gol. Um golaaa\u00e7oo. Corri em dire\u00e7\u00e3o a lateral do campo, como ele sempre fazia, e, olhando para o c\u00e9u como quem diz &#8220;\u00e9 pra voc\u00ea Jacar\u00e9&#8221;, sorri na mais pura felicidade de menino de Rio Espera.<\/p>\n<p><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;\">* Ricardo Alexandre Nogueira Miranda \u00e9 jornalista.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Ricardo Nogueira L\u00e1 em Rio Espera, jacar\u00e9 n\u00e3o \u00e9 nome de bicho. Era nome de Gente. 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